quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A lucidez de Rui Malheiro na análise ao Sporting de Marco Silva


"Rugido do novo leão com muita sede de glória

O impressionante trajeto ascensional de Marco Silva, treinador que em menos de 3 épocas guiou o Estoril da zona baixa da classificação ao título de campeão da 2.ª Liga e a duas qualificações para as provas europeias através de um 4.º e de um 5.º lugar na 1.ª Liga, tornava previsível o salto para um grande. A saída de Leonardo Jardim, seduzido por uma proposta tentadora do Monaco, abriu as portas de Alvalade a um técnico com um trabalho irrepreensível e discurso sedutor, que já havia sido alvitrado para Benfica, FC Porto e Braga.

Trabalhar muito sem fazer grande ruído tem sido uma boa estratégia por parte da equipa técnica e de Bruno Carvalho, que percebeu que era necessário dotar o plantel de mais soluções, abdicando da fonte caseira para apostar numa prospeção global na espinhosa busca do bom e barato, já que o realismo imposto por um orçamento limitado obsta à concretização de aquisições de peso. Por isso mesmo, o interessantíssimo Carrizo, médio argentino versátil, não se tornou leão, e as novelas em torno da aquisição do promitente lateral-esquerdo Jonathan Silva e do ala-esquerdo Kostic, uma das figuras da Eredivisie, estão a eternizar-se.

Os primeiros prélios mostram a vontade de Marco Silva em não abdicar do ótimo legado deixado por Jardim, o que não o impede de seguir os seus princípios, patentes na forma como os mesmos jogadores já jogam de forma diferente, na busca de um futebol intenso, pressionante, capaz de ter mais bola e de ser mais objetivo. A vontade de construir desde trás, conduzindo ao recuo circunstancial do médio-defensivo; a aposta num duplo-pivot, aproximando Adrien de William Carvalho; e o aparecimento de André Martins em zonas de finalização próximo de Montero ilustram o novo Sporting. Contudo, o onze-base não apresenta qualquer reforço, o que não garante o ambicionado salto qualitativo.

Geraldes não tem patenteado argumentos para concorrer com Cédric, e está a perder espaço para Esgaio como alternativa; Paulo Oliveira tem estado estranhamente abúlico, partindo claramente atrás do coriáceo Maurício; Sarr é a alternativa a Rojo, mas apesar de impressionar pela dimensão física ainda tem de crescer a nível tático e técnico; Rabia, opção interessante para médio-defensivo e defesa-central, terá de se adaptar a um país e a uma realidade competitiva que desconhece; Rosell, apesar de se afirmar como reforço mais consistente, ao exibir inteligência posicional, capacidade de pressão e eficácia a jogar com base em passes curtos, não tem a dimensão de William; Slavchev, figura da última Liga búlgara, está sentir o salto para um patamar competitivo mais elevado, acrescido por uma lesão que atrasou a sua preparação, o que o coloca atrás de Adrien e João Mário; Gauld deverá afastar-se da alcunha de “mini-Messi” e preparar-se para o tirocínio na equipa B; o canhoto Tanaka, grande surpresa pela produção goleadora na pré-época, parte atrás de Montero e Slimani, é um avançado capaz de introduzir velocidade, mobilidade, agressividade e sentido de baliza.

O 2.º lugar de 2013/14, na sequência de um exercício com apenas 35 jogos, acrescido de uma época negra para FC Porto e Braga, será o maior inimigo de Marco Silva. A fasquia alterou-se após um exercício em que os resultados foram bem melhores do que as exibições, e a indefinição sobre a continuidade de Rui Patrício, Rojo, William ou Slimani faz com que seja prematuro alvitrar os leões, que perderam Dier, o seu melhor defesa-central, para o Tottenham, como candidatos ao título, até porque se desenha uma temporada com cerca de 50 jogos e muito menos tempo para treinar. Entrar na luta pelo título será bom, alcançá-lo será soberbo, assim como vencer as duas taças e recuperar prestígio fora de portas."

1 comentário:

Paulo Ravasqueira disse...

É uma boa análise. Vai ser difícil mas se não sair mais ninguém partimos em vantagem.

SL