quarta-feira, 8 de julho de 2015

Entrevista de Octávio Machado no Jornal do Sporting

foto: José Cruz

O Jornal do Sporting é um meio privilegiado para as entrevistas com importantes membros da direcção, equipa técnica, jogadores ou outros. O Jornal do Sporting não é caro, a sua edição anual custa 22 euros. O Jornal do Sporting traz na sua edição de amanhã uma grande entrevista com Octávio Machado e que reproduzo aqui. Comprem o jornal do Sporting porque há muito mais para ler!


"Pode não ter ido a Paris ou ao Jamor em 1996, para a finalíssima da Supertaça e para a final da Taça de Portugal; pode não ter ido ao Sporting-Beitar Jerusalém dos 3-0 de 1997, em Alvalade, onde os ‘verde e brancos’ se qualificaram pela primeira vez para uma fase de grupos da Liga dos Campeões; mas sabe do que ele está a falar. E não tem muito a ver com o título do seu livro, lançado em 2008, “Vocês sabem do que estou a falar”, ligado principalmente ao ‘mundo sujo’ no futebol.

Octávio Machado foi o técnico responsável por esses feitos e, 17 anos depois, regressa ao Sporting com uma perspectiva idêntica, de vitórias e de trabalho, mas com uma Academia que, no seu tempo, não existia.

Termina a entrevista com fé: “Se todos fôssemos capazes de entender o que é um balneário, onde se ganha e se perde, onde existem divergências enormes, de religião, de língua, de cor da pele, de orientação política. Mas quando vão para o campo, todos se unem num objectivo comum: ganhar. É um exemplo para a sociedade”. E começa com... Jesus.

JORNAL SPORTING – Quem foi a primeira pessoa a contactá-lo para este novo projecto? OCTÁVIO MACHADO – O Jorge (Jesus). Ligou-me há duas semanas. Estava muito longe de pensar tal coisa, não alimentava qualquer objectivo nesse sentido. Estava num projecto muito interessante na CMTV, com uma equipa maravilhosa e a viver uma grande paixão. O Jesus ligou-me antes da uma da tarde e disse-me que gostava que eu trabalhasse com ele. Eu respondi-lhe que não estava à espera e que me desse uns dias para pensar e falar com alguns amigos. No dia seguinte voltou a ligar e disse-me para irmos ter com o Presidente, e depois dessa conversa a minha disponibilidade foi total.

O que fez a diferença na conversa com o Presidente do Sporting?
A sintonia entre o Presidente e o treinador. Comungam das mesmas ideias e do mesmo discurso, tal como eu. Tinha a motivação de regressar a um Clube onde já fui feliz e voltar a sê-lo ainda mais. As pessoas que compõem a estrutura levam-me a pensar que em boa hora aceitei entrar no projecto. O Presidente demonstrou determinação, projecto, visão e vontade de definir um caminho para alcançar o sucesso pretendido. Juntos, vamos conseguir colocar o Sporting na rota dos títulos. Se alguém quiser alimentar a esperança de conflitos, desengane-se, pois são pessoas com o objectivo comum de servir o Sporting e estou cá para colaborar no que for necessário. Acredito que, no final, vamos ficar felizes com o nosso desempenho.

O que difere Jorge Jesus dos outros treinadores portugueses?
Jesus não subiu à custa de favores de ninguém. Quando estive com ele no Vitória de Setúbal percebi que ele queria ser grande. Teve as oportunidades e com trabalho justificou-as. É competente através do conhecimento que foi acumulando, tornou-se muito melhor do que os outros e ainda vai melhorar mais, à custa do seu trabalho. Foi capaz de tornar as instituições por onde passou maiores e melhores.

Acha que os jogadores já sentem a ‘mão’ do técnico? Quero que eles acreditem nas suas potencialidades. Nenhum deles sabe onde pode chegar, mas sei que Jesus vai fazer deles melhores jogadores. O treino é a alimentação para o conseguirem e o nível de exigência nas sessões é muito elevado. Não há lugar para o q.b., é preciso muito mais e terão de agarrar-se ao trabalho. Não pode haver ninguém satisfeito com o que já tem. É assim que definimos as nossas metas, porque é a isto que os valores da nossa instituição nos obrigam.

Alguma comunicação social conota-o como uma espécie de ‘escudo’ de Jorge Jesus. Concorda com esta afirmação?
Estou aqui como estive noutras alturas, fazendo tudo o que for necessário para proteger o Sporting e fazê-lo ganhar títulos. Farei o que for necessário, com um sorriso nos lábios. Quem me conhece sabe que não sou pressionável, até sou alérgico a isso. Gosto de me sentir livre para tomar as opções que achar melhor e, olhando para trás, é isso que tenho feito. Tenho um defeito enorme: envolvo-me com as pessoas e com as instituições onde estou, o que me causa sofrimento. E assumo tudo o que faço. Fiquei com grande ligação ao Clube após a passagem e fui sentindo isso dos adeptos ao longo dos anos.

O plantel teve poucas mexidas até ao momento. É para ficar como está? Estamos num período de observação. Queremos ver as potencialidades e a maneira de os jogadores trabalharem para depois haver decisões. O Sporting tem uma base de futebolistas muito boa, basta ver na comunicação social o número de jogadores que querem juntar-se ao projecto. Sabemos que não podemos ficar com todos e quem vier vem para ajudar.

A época abre com a disputa da Supertaça, logo a 9 de Agosto. O desfecho deste jogo definirá aquilo que será o resto da temporada?
Prefiro chegar ao fim em primeiro do que partir em primeiro, mas é preciso que não descuremos os ‘timings’. Estamos a tentar encurtar o mais possível o tempo para definirmos o mais rápido possível o plantel esta época e lutarmos desde logo pelo primeiro objectivo, que é a conquista da Supertaça. Naturalmente que é importante vencer, mas sabemos que não vai ser fácil. Tudo o que se conquista não provém de facilidades mas sim de dificuldades. Os nossos adversários merecem todo o respeito e têm o mesmo objectivo que nós, mas também terão de nos respeitar. É verdade que parte significativa dos jogadores só regressa nas vésperas de partirmos para a África do Sul (partida a 21 de Julho) mas não é desculpa. Sabemos as etapas que temos de ultrapassar.

Já tinha estado na Academia?
Vou-lhe fazer uma inconfidência: fui uma vez à Academia, a convite do Costinha, então director do futebol. Tive uma relação óptima com ele enquanto jogador do FC Porto e eu enquanto treinador. Não visitei a Academia toda mas não deixa de ser curioso que oito dos funcionários com quem trabalhei enquanto treinador ainda cá estejam. Vejo neles a mesma paixão de sempre; são profissionais de enorme qualidade.

Falou com Augusto Inácio?
Não, porque conheço o Sporting e as pessoas conhecem-me. Servi esta casa com paixão, tal como nos outros clubes. Não sou surpresa para ninguém. Vou ser aquilo que sempre fui nesta casa, se calhar muito melhor, com outro conhecimento noutras áreas. Tenho acompanhado a vida do Clube e por mais que nos tentemos desligar do passado, não conseguimos. O meu passado orgulha-me e a minha passagem, como treinador, pelo Sporting, marcou-me muito. As reacções dos adeptos para comigo ao longo destes anos em que estive ‘fora’ contribuíram fortemente para regressar.

Foi injusta a sua saída do Sporting enquanto treinador, em 1998?
Saí porque entendi que devia sair. Nunca estive vocacionado para lutas internas. Quero estar num grupo e perceber que o adversário está lá fora e não cá dentro. Nunca pretendo ser um foco de instabilidade nas casas onde vivo. Naquela altura, ou desenvolvia acções que obrigariam a alguma perturbação interna ou ia-me embora. Como achei que os Sportinguistas não mereciam ser perturbados, optei pela segunda via, embora assuma, de há alguns anos a esta parte, que foi o maior erro da minha carreira ter saído. Depois do que aconteceu percebi que deveria ter lutado contra essas situações, até para o bem do Sporting.

Que diferenças existem no futebol actual, em comparação com o tempo de treinador?
O futebol evoluiu em determinados sentidos. Em alguns no bom sentido e noutros não tanto – e que é preciso melhorar. As condições de trabalho são muito melhores, impensáveis na minha altura de treinador. Na relação jogador-Clube há uma nova realidade que temos de aceitar mas pensar que essa realidade tem de ser em benefício dos clubes, ‘empresas’ que geram valor e que devem ficar com grande parte dele. Em minha opinião há que mudar muito nessa área. O futebol gere muito dinheiro mas grande parte dele sai do futebol e é preciso mudar isso."

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