A democracia muitas vezes significa o poder nas mãos de uma maioria incompetente


"No Sporting que me proponho liderar, todos contamos, todos acreditamos, todos participamos".

Esta frase é a Missão do programa eleitoral de Frederico Varandas, quando era candidato à presidência do clube e foi proferida em 26 de Junho de 2018.

Não vou voltar a dizer o que penso da destituição da anterior direcção ou da expulsão de sócio do antigo líder do Sporting, nem repetir que o incidente em Alcochete marca a vida do clube, foi horrível e a violência nunca poderá ser o caminho para se chegar a lugar algum, seja no Sporting ou noutro acontecimento qualquer.

Frederico Varandas foi o primeiro a avançar como candidato. O que poderia ser visto como uma traição à direcção que ainda estava no Sporting, foi, na minha opinião, um jogada decisiva. O timing foi preponderante para colocar do seu lado muitos, embora não saiba o número concreto, Sportinguistas que (alguns) até tinham sido apoiantes de Bruno de Carvalho e lançar-se na frente da corrida. João Benedito, que até viu um maior número de sócios votar em si, nunca teve a capacidade de comunicação de Varandas. Não da pessoa em si, que como sabemos é fraca a comunicar, mas da LPM que montou um esquema que funcionou na perfeição e elegeu Frederico Varandas como Presidente. Diria que grande parte dos Sportinguistas que votou no programa de Frederico Varandas foram instrumentalizados e entre um misto de ter sido o primeiro a virar-se contra a anterior Direcção, de ter estado tantos anos no clube como profissional médico e da quantidade de falácias mal montadas mas muito bem reproduzidas pela sua agência de comunicação chegou para a vitória.

Mas o que mais me espanta é que na sua lista tinha Rogério Alves e isso, só isso, era o suficiente para não poder contar nunca com o meu apoio e eu esperaria que mais Sportinguistas percebessem isso.

Com as eleições terminadas era comum ouvir-se entre Sportinguistas que os primeiros meses de Varandas seriam quase como um "ano zero". Isso, mais alguns títulos nacionais e internacionais conquistados, deram um balão de oxigénio enorme para que aquilo que mais cedo ou mais tarde iria estar à vista demorasse a aparecer: a falta de competência!

O planeamento da época em curso é uma evidência da falta de estrutura no futebol capaz de responder aos desafios do Sporting, que falhou a todos os níveis e que, ainda por cima, nunca foi capaz de assumir as suas dificuldades, lacunas e problemas que não foram resolvidos. Além disso, Varandas, numa célebre entrevista na Academia, com um som de fundo que não foi capaz de pedir para parar, disse algumas das maiores barbaridades e projectou-se uma época 2019/20 como todos sabíamos, infelizmente, que iria ser: um desastre!

Estou farto de ouvir a expressões como "por causa de Alcochete", "o Sporting vai demorar a recuperar de Alcochete" e coisas parecidas como estas. Irei condenar sempre o que passou. No entanto, é preciso perceber que a recuperação de um clube não é como recuperar de uma segunda guerra mundial. Isto não se trata de melhorar a vida dos Polacos no pós Segunda Guerra Mundial ou de não perseguir os judeus, especialmente após o tratamento inacreditável que tivera no Holocausto.

O Sporting, este Sporting desta Direcção pelo que vamos vendo tem falta de estratégia a médio e longo prazo e tudo o que vai fazendo é reagir. 

Vejamos que em 2019, ali por Outubro, ainda se viam muitos Mohammed Saeed al-Sahhaf a falar do estado actual do Sporting e dos sucessos. Mas o mais incrível é que muitos desses Mohammed's achariam que por algum momento ver o Sporting vencer fosse mau. Nada mais errado!

E quando as bolas passaram a não entrar e o Sporting a ficar cada vez mais longe dos seus objectivos começou o discurso da herança. A pesada herança foi a primeira nota fundamental para perceber que havia falta de estratégia no clube.

Não tenho dúvidas que existiam problemas para resolver no Sporting especialmente depois do período conturbado de Bruno de Carvalho a partir de Maio de 2018 e também de uma Comissão de Gestão quase patética que assinou cheques sem cobertura porque quem viesse a seguir é que iria pagar.

A herança foi a primeira demagogia desta Direcção. Vejamos que uma coisa são dificuldades, especialmente ao nível de "cash-flow" que acredito que sejam constantes no Sporting. É preciso pagar aos credores, é preciso pagar salários e o dinheiro não abunda. Mas aquilo que nunca tinha sido um problema nos primeiros 12 meses, passou a ser quando a bola deixou de entrar. A bola de futebol!

Quando a herança, financeira, já não servia de desculpa, porque a desportiva nunca foi um problema ser uma herança. Manter equipas bem construídas nas modalidades que continuam competitivas não é um problema, nem será. Mas como dizia, quando a herança já não servia de desculpa, começou a guerra aos grupos organizados.

Há muito por onde pegar nos grupos organizados, mas a forma como se perseguiram as pessoas porque tinham relação com os grupos organizados foi a segunda demagogia desta Direcção. Porque nunca quiseram resolver o problema subjacente aos grupos organizados. Aliás, nenhum clube sozinho poderá fazê-lo. Frederico Varandas sabe disso, Pinto da Costa também e Luís Filipe Vieira ainda no outro dia, sabendo-o também, disse na televisão que o Governo é que teria de resolver a questão da violência do desporto. Parecia um catedrático a falar!

Frederico Varandas, e a sua Direcção, com esta luta contra os grupos organizados estava a colocar as coisas da seguinte forma "ou estão connosco, ou estão contra nós". Esperava ter uma grande fatia de Sportinguistas do seu lado, que inicialmente até funcionou, mas, como é natural, a demagogia tem tendência para não passar disso. E quando passou a prepotência, tudo começou a virar-se contra ele. E ainda se esqueceu que tudo isso é muito engraçado e até pode funcionar num primeiro momento se a bola continuar a entrar, e é a bola de futebol, pois a partir daquela altura em que os resultados desportivos começarem a falhar, principalmente o futebol, e não foi preciso mais que 2 derrotas em Alvalade contra o Porto e Benfica para colocar a nu as deficiências naturais da equipa, do planeamento e da capacidade de resposta de quem gere o futebol. Mesmo os que inicialmente o ouviram, passarão a questionar "mas a culpa é das claques?", "são eles que gerem o clube?", "foram eles a comprar Jesé e Fernando?", "foram eles a esquecerem-se de inscrever Pedro Mendes no verão?", "foram eles a contratar 5 treinadores?" e por aí fora. Nesta altura só há um caminho em relação a este assunto com os grupos organizados. Apoiar o Sporting, da parte deles, e a Direcção procurar por outra via, a do diálogo, encontrar o melhor caminho para que este problema não seja uma "guerra" entre Sportinguistas. 

Olhando para tudo isto que estou a escrever, o programa eleitoral parece estar a ser esquecido e a demagogia tomou conta da Direcção.

E porque falo disto?

Fácil. Esta semana que está a acabar, Rogério Alves, Presidente da Mesa de Assembleia Geral do Sporting, indeferiu o pedido de Assembleia Geral que poderia levar à destituição desta Direcção. Nada que fosse novidade, tinha-o dito no programa de segunda feira do Sporting160, não só porque era a minha opinião que o pedido do Movimento Dar Futuro não era bem fundamentado e porque era Rogério Alves a decidir. A unanimidade que ele veio falar na televisão foi completamente para encher chouriços. Basta analisar a importância de Rogério Alves no clube no últimos anos, é capaz de dar para fazer uma tese de doutoramento e perceber que ele através de certos mecanismos acaba por "mandar" no clube!

Mas há para mim uma razão fundamental para falar disto. A falta de competência não deve ser a medida para destituir uma direcção. Pode ser para avaliar o mandato, nesse aspecto concordo perfeitamente. Poder ser para avaliar uma circunstância, uma medida que tenha sido tomada, um departamento criado, mas a forma como é evocada a competência para retirar uma direcção do poder não pode ser tão simplista pois caso contrário estaríamos todos os anos tratar disso.

Na realidade, e quem me lê ou ouve nos últimos anos, sabe que para mim a medida de análise mais importante de uma lista para as eleições ou de uma direcção à frente do clube é o programa eleitoral.

Quando os Sportinguistas votam e lêem um programa eleitoral precisam de estar conscientes do que estão a fazer e que a Direcção que vão eleger para os próximos anos tem como base esse program. O acto de votar não pode ser um simples colocar cruz à frente de um nome, que é de um Sportinguista, que até pode ter as melhores intenções, mas ser um autêntico incompetente.

Atenção que para mim esta Direcção está esgotada. Falhou redondamente olhando para o seu programa eleitoral, especialmente na parte da união, mas, até prova em contrário tudo foi feito com legitimidade e por isso continuam a ocupar os lugares para que foram eleitos.

Claro que vem agora a pergunta, "mas, oh Varela, vamos levar com eles até ao fim?". Pois, a questão é que eles vivem num mundo autista. Porque já deveriam ter percebido que no domingo passado não foram grupos organizados, mas sim uma franja significativa de adeptos do Sporting a pedir a sua demissão e por isso esta Direcção, no mínimo, na minha opinião, deveria convocar uma Assembleia Geral para ser votada uma moção de confiança à sua continuidade.

Aliás, é este o único caminho que nesta altura encontro ser possível para acabar com este clima de guerra civil entre Sportinguistas ou para o minimizar. A esta altura já devem estar alguns leitores a dizer o seguinte "tu és doido, eu quero é que eles se vão embora". Ora, eu percebo isso, mas não havendo eleições, não havendo destituição com justa causa seja de que forma for, só perante os adeptos em AG podemos sentir o verdadeiro apoio que esta Direcção tem. Acho mesmo que seria até prudente para eles!

Não sendo possível uma AG para sentir o pulso da nação verde e branca, diria que há duas opções. A primeira é que esta Direcção vai até ao final do mandato e para a próxima vejam em quem votam. A segunda é que seja possível congregar diferentes sensibilidades de Sportinguistas em alguém capaz de fazer pressão para que a tal AG seja realizada. Sem violência, sem mentiras, sem contorcionismos.

Finalizo com a seguinte frase "A democracia muitas vezes significa o poder nas mãos de uma maioria incompetente" (frase de George Bernard Shaw), essa maioria foi eleita pelos sócios, por isso, quando se diz o que o Sporting é de quem os sócios querem que seja, é verdade e tem sempre repercussões muito superiores ao que podem imaginar.

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